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A estrela brilhante da sala

Venho trabalhando há alguns anos para esta companhia estrangeira. No início, éramos somente eu, meu chefe da Nicaragua e mais dois colegas mexicanos, prestando remotamente suporte técnico aos incautos que adquiriam o produto. Tínhamos uma reunião semanal, de cerca de uma hora, onde eram tratados os problemas mais recentes. Sem pautas pessoais. Em pouco mais de um ano, a equipe aumentou para quinze pessoas e em dois anos éramos cerca de trinta sul-americanos trabalhando oito horas por dia e seis dias por semana, ganhando tão pouco que o dono da empresa contratou mais centenas de outros profissionais ao redor do mundo em países economicamente estratégicos. 

O frenezi estava tão grande, que todos os dias surgiam departamentos inteiros para gerenciar atividades que, até ontem, nem eram imaginadas. Novos funcionários chegavam animados das mais remotas partes do sul global, cheios de esperança e vontade de se destacar na equipe. A empresa crescia de tal maneira que começou a chamar a atenção da mídia e dos investidores, que injetaram milhares de dólares para uma expansão rápida.  

Assim, economizando em contratos de trabalho e em escritórios, visto que nós trabalhávamos de casa, a empresa se estabeleceu no planeta e certa feita achou de bom grado reunir os funcionários em algum local ensolarado, para um encontro presencial de uma semana. Foi uma supresa agradável, mas passamos cerca de um mês conjecturando como seria passar férias com os chefes entre piadas, ansiedade e preocupações. 

Todos estávamos animados, era a primeira vez que eu fazia uma viagem internacional com tudo pago, me senti uma peça importante. Nos encontramos no calor insuportável de Orlando em Junho.  Foi interessante encontrar as pessoas que, até então, eu só via em pequenos quadrados na tela do computador. Mais interessante ainda, conversar e ver quantas tantas coisas em comum, desde gostos pessoais, idade, carreiras, escolha de cursos e faculdade. O primeiro dia do encontro foi muito agradável, senti uma conexão forte com meus colegas e era fácil conversar com todos eles. Era como se nos conhecessemos a muitos anos.

A partir do segundo dia, a excitação foi dando lugar para uma certa estranheza. Conforme conversávamos fui reparando que todos compartilhavam um conjunto de características pessoais e profissionais muito além do currículo. Nós tínhamos também a mesma estatura, mesma cor de olhos, falávamos os mesmos três idiomas. Até mesmo nossas expressões faciais e gestos eram semelhantes, nosso tom de voz criava um murmúrio constante na sala do escritório alugado. Quando eu sentia sede, o colega do lado levantava-se automaticamente para pegar água para si e, como em um estádio em ola, todos revezavam o bebedouro. O mesmo movimento era repetido quando, de tempos em tempos, pegávamos o celular para, discretamente olhar as redes sociais enquanto o chefe explicava como iríamos alcanças as metas. Parecíamos marionetes coordenadas por um fio invisível. Quando mencionei que esta sincronia estava me incomodando, ao contrário de provocar surpresa, o fato foi entendido como coincidência e virei motivo de piadas e troças. 

Não tenho memória de outro momento em que tenha testemunhado tal desatino. Puxei uma colega para um canto e perguntei-lhe se também não estava incomodada com as semelhanças entre nós, ela riu e concordou, mas não parecia preocupada. Pelo contrário, parecia feliz em compartilhar tantas coisas em comum e ter a confirmação de que mais pessoas estavam seguindo o mesmo caminho. Enquanto conversávamos, descobri que realmente fazíamos os mesmos gestos com as mãos para ajeitar o cabelo, nossos óculos tinham o mesmo grau e corrigiam a mesma deficiência e também tínhamos os mesmos gostos pessoais, tanto em questões superficiais, como a música, predileção por cachorros ou a tendência à introspecção, quanto em questões mais profundas como ter pais vivos, estar em um relacionamento, não querer ter filhos, questões de saúde, vida financeira, comida preferida e até as mesmas habilidades artísticas! Isso tudo transcendia os limites da casualidade e eu fui ficando transtornada com a indiferença dos outros frente a tamanho absurdo.

Sentia como se, para estar alí, tivesse deslizado em um grande funil de informações meticulosamente coletadas, que selecionou pessoas parecidas. Imagino que tudo tenha sido levado em consideração, desde nossas interações online, seja em fóruns de discussão, partcipação em eventos, redes sociais e tantos outros rastros que deixamos na internet e nem sequer nos damos conta, para nos escolher entre tantas outras cabeças no topo desse funil.  

Os gerentes anotavam em seus notebooks o que pareciam representações matemáticas e estatísticas desse processo de aquisição de pessoas, reunidas por uma inteligência invisível que tinha vasculhado os recantos mais secretos de nossas vidas na internet. Eles revezavam momentos de interação com cada um de nós e a cada conversa, os dois se reuniam a um canto e falavam por alguns minutos na sua língua materna, que nenhum de nós era capaz de compreender. Assim fizeram um rodízio entre todos os funcionários. Eu me sentia atuando em uma peça de teatro sinistra, observada por expectadores curiosos que nos lançavam olhares condescendente como quando, no zoológico, nos damos conta das semelhanças entre os símios e humanos.

Não tínhamos identidade ali e eu não conseguia esconder meu desconforto. Éramos como modelos em teste de desempenho, reclamei com um outro colega que também deu de ombros. Talvez eles procurassem encontrar padrões ocultos, realizar previsões acerca de nossos comportamentos e interações que, online seriam inacessíveis, por isso organizaram esse encontro. Eu tentei chamar a atenção das outras pessoas discretamente para compartilhar minha indignação, mas debalde. Nos dias que se seguiram, passei a se vista como a colega tóxica que só reclama e passaram a evitar o meu lado durante as refeições.

No último dia das confraternizações, um dos funcionários foi promovido. Apertou a mão do chefe animado, batemos palmas e entreolhamo-nos sem entender muito bem, o que ele teria a mais do que qualquer um a de nós. Saímos do escritório com planos de nos reunir à noite para despedidas e jantar antes de voltarmos para nossos países.

 Uma semana depois dessa viagem, passamos a ter métricas de desempenho mais agressivas e avaliações semanais de performance, além de um monitoramento de tempo de trabalho. Depois do encontro nenhuma outra mulher foi contratada para o departamento, ao passo que mais dois colegas acabaram de chegar. Os dois, brancos, com a mesma idade, nacionalidade, formação acadêmica, casados e sem filhos. Aparentemente a diversidade é vista como uma anomalia a ser contida. 

Abordei minha colega, perguntando se ela estava satisfeita com essas mudanças, expliquei que não fazia sentido trabalharmos mais que o dobro pelo mesmo salário. Ela finalmente disse que concordava e que haviam outros descontentes também. Senti esperanças de que poderíamos reinvindicar melhorias, visto que eu já havia reclamado ao chefe inúmeras vezes.

Marcamos uma reunião online para organizar nossas demandas, teoricamente apresentaríamos algumas reivindicações. Eu estava extasiada só de imaginar todos reunidos para finalmente reclamar nosso valor, mas às três da tarde, somente minha colega mexicana entrou na reunião e meio desanimada me perguntou o que mais eu queria da empresa, como quem não entende como a vida poderia melhorar. Meses mais tarde, ela passou a ser a funcionária destaque da equipe e todo final de mês, durante a reunião online, o chefe parabeniza a sua performance em público com uma animação de uma pequena estrela dourada e brilhante. Os salários permaneceram congelados por causa da guerra do oriente médio, por causa da falta de chips semicondutores e como todos sabem a crise do petróleo. Na última reunião, foi estipulada que a meta de lucros deste ano seria o dobro da meta do ano passado.

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