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O sonho do sol

Nuremberg Sky Battle – Hans Glaser foi um gravador e editor de Nuremberg, Alemanha, conhecido por seu trabalho durante o século XVI.

Deitou-se às vinte e uma horas, depois de comer as guarnições que ofertaram os vizinhos para o velório. Fora duras horas de sofrimento, mas agora de barriga cheia e em negação adormeceu na cama vazia. O lençol ainda cheirava ao creme de cabelo da recém falecida. Se estivesse viva alertaria para o perigo de deitar de barriga cheia. Era certo que a pisadeira já estava à espreita pelas frestas da madrugada, na sanha de folgar seus pés de unhas sujas no peito de quem dorme com a barriga para cima. Mas também era certo o pesadelo que vinha toda noite. Tião agoniava-se em insônia aturdido por esse sonho de significado confuso. Deitava por algumas horas para então desvairar-se de medo, se mijando inteiro sobressaltava a esposa. A princípio, quando os sonhos começaram, tiveram cuidado de forrar o leito com sacolas de plástico e puseram travesseiros para que não batesse a testa na cabeceira da cama. Mas depois foram se acostumando com a má noite e antes que Tião começasse a grunhir sua fala sonâmbula a mulher já dormia petrificada pelo cansaço do dia.

Quando viva ela era a ordem da casa. Era quem punha comida na mesa lavando roupa para fora, juntando o estrume de galinheiro, aguando as plantas e cuidando dos bichos enquanto o marido gastava o dia e a féria na cachaça e na rinha. 

—Um dia eu te largo, seu traste — soltava entre os dentes enquanto os braços fortes esfregavam fundilhos de calças sujas. Tião ria-se e dava-lhe um beijinho fraco no ombro bronzeado, sabia que a mulher era só ameaça e amargura. Na noite em que seu coração parou foi que se deu conta que não sabia fazer nada dentro de casa e nem na vida. Não sabia a quem chamar, não sabia os procederes do enterro e nem as papeladas, não sabia cozinhar, nem preparar o frango. Quando a avó faleceu e deixou a casa, foi a esposa que cuidou de tudo enquanto o marido chorava na cachaça.

Mas estava feito, seu último parente tinha morrido e só lhe restavam poucas latas de milho na dispensa, cinco galinhas, um galo garnizé e a comida requentada do velório. Quando a comida acabou de vez, sentava no quintal esperando gritar as galinhas para sacar-lhe os ovos. Era a hora que tomava um pouco de sol na pele clara e ressecada e punha-se a lembrar do pesadelo. Tinha para si que se descobrisse o significado daquelas imagens iria desvendar algum mistério religioso e se ver livre para dormir sem sonhar. Cismava nas cenas e as desenhava com graveto na terra batida. A tal cena se resumia a um sol plácido que parecia observar sobre os ombros cruzes e machados que abriam fendas no céu tomado de explosões. Toda noite há pelo menos cinco anos vinha tendo esse sonho e não conseguia dormir mais do que duas horas. Por isso também a mulher se enojou dele e passou a assumir as tarefas do homem que não prestava para quase nada mais.
O médico do posto passou melatonina no começo, chá de erva cidreira também não adiantou. Depois foi um amigo que deu uns comprimidos de Clonazepam, que bateram como um soco no queixo. Mas o que houve foi que ficou preso no pesadelo sem conseguir acordar. A noite toda olhando para dentro dopado e inerte naquela guerra no céu. Se queixou à mulher que explicou pela milésima vez que aquilo era a pisadeira. Ele ignorava. Cada um tinha uma explicação para sua insônia. Com os anos se acostumou a não dormir e criou uma técnica para acordar assim que raiasse as primeiras luzes desse sol cínico que amanhecia seu inferno mental. 

Com a morte da mulher, no entanto, o pesadelo ficou mais violento e difícil de escapar. Também se alimentava mal e já nem banho tomava, tinha um odor de desgraça. Sem ração de postura, as galinhas decrépitas pararam de botar ovos. Só restou comê-las. Certa feita, um antigo camarada veio da cidade com umas novidades, mas psicodélicos não lhe interessavam e nem tinha dinheiro para entretenimentos. Vendo que o homem tinha acesso a essas coisas contou-lhe os pormenores da sua desgraça, implorando por algum troço que o fizesse dormir sem sonhar, qualquer coisa que tirasse a mente de dentro da sua cabeça. Em troca tinha o toca fitas que estava novinho na mesa da sala. Sob promessas positivas o homem disse que voltaria em uma semana.

Assim o fez e trouxe consigo uma maleta cheia de ampolas, seringas, saquinhos de cocaína e tabletes de maconha. Tião arregalou-se sem nem conseguir avaliar o estrago que aquela maleta podia fazer na na mente do sujeito. O amigo explicou os detalhes e que cada ampola daquela custava um pouco mais do que o rádio que lhe prometera. Tião correu para dentro da casa a procurar nas gavetas de bugigangas da mulher algo que valesse na troca. Encontrou um terço de madre pérolas com um Jesus de ouro, o que o outro meteu entre os dentes atestando os quilates. Estava feito. 

Ao cair da noite, o relógio a roçar pelas vinte horas, mal podia esperar para injetar o troço no corpo. Fora instruído a picar ou entre os dedos dos pés, ou a veia do pescoço ou a do braço, escolheu a do braço. Como ensinado, amarrou o garrote e a veia verde inchou na pele, deu dois tapinhas para ativar o sangue e apontou a agulha sentindo a picada quente. Empurrou o êmbolo devagar, o líquido se alastrou para dentro. Um gosto de visgo ressecou sua boca à medida que uma paz bambeou as pernas. A pisadeira espreitou de longe, mas não se chegou. Os primeiros raios do sol miserável ameaçaram raiar, mas então tudo virou uma escuridão sideral. A seringa já ia completamente vazia na mão frouxa. Deixou-se cair de lado no chão entregue no sono digno que tanto desejou. Por doze horas, dormiu sem sonhar.

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