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Terreno Baldio

Quando falaram eu custei a crer. Fiquei surpresa e confusa. Tinha um vago sentimento que parecia remorso, mas não era. Naquele sábado, como repeti diversas vezes à polícia, eu vinha já na metade do expediente e pretendia trabalhar só até às dezoito horas, pois não gostava de dirigir de noite. Fazia uns quarenta graus na rua e eu estava de camiseta, trazia os vidros fechados e o ar no último. Tinha passageiro que vinha fedendo, aí não tinha jeito eu tinha que abrir as janelas, por que bastava estar carregando gente o dia todo, não precisava ainda estar sentindo seus odores.

Mas aquele dia vinha sendo tranquilo, consegui parar no horário e almocei meu sanduíche estacionada na sombra. Reclinei meu banco, para tirar uns quinze minutos e acordei descansada. Dei uma checada no celular e li as notícias como sempre faço três vezes ao dia. Naquele dia li algo sobre um crime onde o sujeito matou todas as mulheres da família. Rolei mais algumas notícias, a gasolina ia aumentar e nem a Maria da Penha resolveu o caso da apresentadora de tevê bonitona que teve a cara amassada pelos socos do marido. Minha mãe sempre alertava para estar de olho aberto com os homens.  O jornal não me faziam bem, mas eu achava que era preciso estar ciente da realidade e eu não me deixava levar por paranoias. Tomava meus cuidados para não ser assaltada durante o serviço, trazia meus amuletos e bem, eu já estava na lida fazia mais de quatro anos, então me sentia segura no meu táxi.

Foi na última corrida que aceitei, que entrou esse sujeito bem vestido indo para o centro velho. Tudo corria bem e chegamos ao destino. Mas o homem disse que o local era errado e pondo a mão no meu ombro pediu com um sorriso cortes para eu continuar descendo a rua. Eu desvencilhei o ombro e falei que de acordo com o mapa, já estávamos no lugar certo. Ele insistiu projetando o corpo entre os bancos da frente, “desça mais um pouco, o mapa está errado” fez ele com o queixo rente ao meu rosto. A sua cara imensa ia ao lado da minha, olhando a rua, como se procurasse o endereço que nunca chegava. Tinha um perfume enjoado, como esses desodorantes de homens que praticam esporte. Eu segui dirigindo em marcha lenta aguardando ele dar o sinal de parar.

Ao passo que passávamos por uma área cheia de terrenos baldios ele achou de meter a mão dentro da minha blusa e pegar no meu peito. Aquela mão quente e úmida no meu seio direito me deu um nó na cabeça. Nessa hora, não sei se freei o carro ou se continuei dirigindo, tudo ficou preto e trêmulo. Sumiu a rua, sumiu o homem, sumiu o carro, minha garganta fechou. Sentia apenas meus pés pisando ao mesmo tempo no freio e na embreagem, a mão quente no seio direito. 

Tateei com dificuldade nos nervos o porta objetos e alcancei o canivete. Um daqueles canivetes que também abrem garrafas, rolhas e tem várias funções. Ganhei de meu pai quando ainda era adolescente, o saca rolhas já estava enferrujado e a faca até então me servia apenas para tirar a casca da maçã. Quando senti a empunhadura da madeira que protegia a lâmina, engatilhei o botão da navalha e com força dei uns golpes no ar. De repente senti um uma resistência macia, era carne, continuei. Não sei qual parte da carne era, mas o toque me lembrou peito de frango.

Não sei por quanto tempo navalhei o ar e cortei as carnes do sujeito. Não sei nem se ele gritou, se teve medo. Se a sua vida toda passou como um filme pela sua frente, se repensou suas atitudes. Será que implorou? Eu não sei, só sei que quando a consciência voltou ao meu corpo, o táxi estava estacionado na calçada de um terreno baldio. A rua deserta e o homem deitado no banco de trás com uma cara serena de quem dorme depois do almoço. O sangue encharcava carpete. Meu primeiro pensamento foi como eu explicaria essa sujeira para o rapaz que lava jato. Só mais tarde soube que precisaria de um advogado. Quando eles falaram trinta e duas facadas, eu custei a crer.

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