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Um gato nas barricadas

Este conto foi escrito e distribuído gratuitamente durante o evento “A extraordinária vida de Louise Michel” ministrado pela Professora de história, pesquisadora e Doutora em Educação pela Unicamp na área de História da Educação, SAMANTHA LODI. Participante do Coletivo de Mulheres Maria Lacerda de Moura e autora do livro “Louise Michel: pertenço à Revolução Social” pela @editoraentremares em 9 de março de 2024.

Minha barriga doía, mas não mais do que a minha cabeça. Eu tinha fome, frio e muito medo. Cada tiro, cada grito, cada patada da cavalaria cujos animais estavam mais apavorados do que eu, mas obedientes avançavam sobre os insubordinados que reagiam à violência, meu corpo tremia. Escondido debaixo de uns escombros permaneci deitado por vários dias sentindo cheiro de sangue e pólvora e olhando pelas frestas dos pedregulhos resquícios dos prédios bombardeados. 

Não havia esperança de que aquele fervilhar fosse cessar tão cedo. Esperava até a noite, para então sair um pouco e procurar algo de comer, apesar de já fraco e capenga das pernas conseguia, me esgueirando entre os feridos e mortos, restos de marmitas que chegavam pontualmente às vinte e duas horas, entregues por pessoas vestidas de branco que cuidavam dos agonizantes. Assim mantinha meu corpo vivo por mais algum tempo. Pelo chão e pelas ruas, mortos ou pegando em armas eu via homens e mulheres comuns, os mesmos que até semana passada estavam também assim como eu, com a barriga e a cabeça doendo de tentar sobreviver nesse mundo injusto. 

Apesar de não entender muito bem o que se passava, seria fácil escolher um aliado se isso me fosse necessário. De um lado, homens e mulheres artesãos, operários, vagabundos e artistas e do outro apenas soldados do exército cumprindo ordens. Era um covarde massacre, mas por algum motivo os massacrados persistiam. 

“Vive la commune!”, gritou um sujeito a poucos metros de onde me escondia antes de tomar um tiro no rosto. Seu corpo ao tocar o solo levantou uma poeira fina e cinza que fez toda a cena desaparecer gradualmente. Apertei os olhos de medo desejando eu também sumir na poeira com ele. Naquele dia, vi um grupo de mulheres embriagadas de álcool ou de ideias, arrastarem com dificuldade uma guilhotina. Elas levaram o objeto ao pé de uma estátua onde então, como se o caos já não bastasse, despedaçaram e atearam fogo. Elas estavam em êxtase e celebravam o ato corajoso com gritos e abraços. Eu até cheguei mais perto para participar daquele momento espirituoso em meio ao inferno. A lua ia alta e ficamos tomando a fresca da noite. Mais tarde, todas seriam jogadas no fogo também.

Era incompreensível para mim todo aquele sofrimento. Esses seres pareciam não ter respeito por absolutamente nada, não enxergavam que a bala que entra na cabeça do inimigo vai ricochetear em seu próprio coração. Talvez pensem que sejam os únicos terráqueos, mas todos somos afetados pelo mesmo poder, seja ele humano, bicho ou planta. Sentado com esses pensamentos meu corpo desfalecia, revolvi que era hora de morrer também, deixar meu corpo ser lesado definitivamente, voltar para terra e terminar meu ciclo, eu estava muito cansado para continuar resistindo sem entender exatamente para que.

Saí de trás da pequena barricada e caminhei devagar por entre os destroços e tiros que voavam de um lado para o outro. Fiquei surdo de um estampido e imediatamente uma paz invadiu meu coração, estava em silêncio. Sentei para observar os rebeldes lutando, meus ouvidos destamparam, “liberté” gritou uma mulher antes de ter o peito destroçado pelo soldado cujo olhar era tão perdido e vazio que denunciava a falta de alma no corpo. Não tive mais medo, queria apenas ser alvo fácil de uma bala rápida e finalmente voltar para o seio da terra junto aos meus.

Nessa hora derradeira senti por sobre meus ombros uma mão delicada e gentil que me suspendeu no ar me apaziguando junto ao peito. Fui carregado às pressas para trás da trincheira e imediatamente ganhei água limpa aliviando minha garganta ressecada. Eu nem sabia que tinha tanta sede. Fui transferido em seguida para uma casa onde tive meus pelos limpos da poeira e do sangue que já ia duro nas feridas que eu tinha desistido de lamber. A esta altura achei que estava morto, mas não tinha tanta certeza, então fui adormecendo devagar enrolado em um cobertor sobre um sofá enquanto alguém acariciava com cuidado as minhas costas. Ao meu redor, umas pessoas confabulavam sobre direitos, autonomia, sociedade justa e igualitária, associações livres. Eu escutava tudo aquilo, ainda em dúvida se seria um sonho, a morte ou se realmente haviam pessoas se unindo para organizar o mundo de uma maneira melhor. Uma mulher, com carinho cobriu minha cabeça com o corbertor e com uma voz determinada anunciou para os outros que “não se pode matar as ideias nem a tiros de canhão e nem as prender entre os dedos”. Os outros gritaram, “vive Louise Michel e “Vive la Commune!”!” tocando taças e copos. Assim adormeci àquela noite em algazarra, com essas ideias revolucionárias de um novo tempo onde a opressão e o sofrimento não fossem utilizados como instrumento de controle de nenhum ser vivente e que o mundo talvez pudesse ser um lugar melhor para todos.

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