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A mulher que grita

conto

Você é uma pessoa maravilhosa quando está de folga, lamentou me entregando a bolsa da marmita. Caminhei até o ponto cansada já e o dia ainda nem tinha começado. Cacei uns centavos na bolsa, juntei as notas, não quis o troco. O sacolejo do motor embalou por uma hora o sono tórpido, ranço de óleo diesel e perfume doce. Desci na portaria, senti azia, bati o ponto, dei bom dia ao porteiro que fazia 3 horas que estava ali e ainda era cedo. 

Fila na máquina de café, geladeira cheia de marmita não tinha lugar para a minha, aquela mulher que grita estava na cozinha contando como foi… 

Não quero saber, volto depois. 

Liguei meu computador, minha marmita no chão, barulho do elevador, o gerente com o pau na mão: você tem até meio dia para entregar o relatório! Minha cara quente de ódio. Fiz sorriso de velório e concordei começando a digitação. 

Indústria de perfuração, ano dois mil e vinte e meu dedo médio soltou da mão. Caiu alí entre o I e o K. Que porra é essa? Medo. Olhei para os lados, ninguém viu. Respirei. O buraco faltando e o dedo esfarelado escondi embaixo do teclado. Caiu o mindinho também, estou alucinando? Corri para o banheiro jogar água no rosto, gosto de zinabre na saliva marrom, passei a mão nos cabelos, o tufo caiu no chão, muito cabelo puxava saía, caía no chão. 

Bochechei os dentes, entupiram o ralo. A pele marrom oxidava em contato com a água, esfarelava. A ferrugem se espalhava igual larva comendo osso. Os orgãos, o oxigênio levava, tapei o buraco da boca com um pedaço da palma da mão, não vou respirar. O que eu faço, rezar? 

O joelho começou a descambar, não sei oração, mas ajoelhei e o pé soltou da perna, ficou lá o tênis e nem mão eu tinha para juntar as partes. Se respirava, mais a ferrugem tomava as partes que eu precisava. Os cotovelos soltaram afundando o ombro no peito, a cabeça escorregou até meu colo, era o fim. Como alguém pode morrer assim? Desisti, respirei fundo e o olho esquerdo ainda viu a porta do banheiro abrir, vinha alguém mas eu já não era.

A mulher que grita viu meu uniforme cheio de ferrugem e comentou com a outra: essa daí era só a preguiça, olho sem brilho, cara sem viço. Nunca vestiu a camisa e agora dá sumiço, sem tchau nem discurso, sem fazer bom uso do tempo que passou aqui. 

Fofoca eu não espalho, mas não entendo essa gente que não ama a empresa, se bobear processa e avacalha, difama os colegas e o gerente que só lhe fez o favor de dar um trabalho. 

São Paulo, 09/04/2024

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