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A tulipa

Lá pelas quatro da tarde, com a alma morta pelo cansaço do trabalho repetitivo e inútil, resolvi conceder-me uma folga e desliguei meu computador quinze minutos mais cedo.

Preparei minha vitamina de banana e fui beber na varanda, onde, apreciando o cair da tarde, já estava o gato repousado no parapeito. Ficamos os dois olhando a cidade através da rede de proteção. Do alto, divisávamos a copa das árvores incomodadas com o vento, pessoas chegando apressadas no ponto de ônibus e os carros freando no sinal. O engarrafamento que se iniciava me fez lembrar que os legumes tinham acabado. Eu tinha que correr até o supermercado naquele momento, se quisesse evitar o trânsito mais tarde. Suspirei com desgosto e entrei para trocar de calça.

No mercado as mexericas estavam baratas e doces. Me apetecia os melões também, mas sabia que estavam fora de época. Num canto, próximo aos caixas, vi umas tulipas embaladas em plástico, em pequenos vasos no chão. Um sorriso desembolou meu cenho franzido. Larguei o carrinho para trás na urgência de apreciar aquelas as flores. Caules firmes com folhas cuidadosamente desenhadas, seis pétalas num vermelho imperial perfeito, exalando um aroma discreto de donzela, eram maravilhosas. 

Olhei ao redor buscando cúmplices para compartilhar dessa alegria inesperada, mas era somente eu ali agachada e a moça do mercado absorta no movimento da rua. Escolhi uma tulipa para levar, apesar de todas estarem perfeitas. Senti pena em deixá-las naquele canto. Mas, tinha esperança de que, ao vê-las, qualquer pessoa iria sentir essa mesma alegria infantil e levaria uma flor para casa também. 

Em casa, arrumei a sala e acomodei a tulipa em um vaso maior com terra adubada de outras plantas. As flores se fecharam. Imaginei que ela não se agradou da mudança brusca e morreria no dia seguinte. Me deu uma leve tristeza. Procurei na internet que tipos de cuidados ela preferia. Pouca água, pedrinhas de gelo na raiz e luz indireta. Me sentia atendendo a pedidos de uma entidade espiritual que se manifestou na minha casa, e afinal não era? 

Na manhã seguinte, qual não foi minha surpresa ao vê-la esplendorosamente aberta e inclinada para a luz do sol que entrava pela janela da sala. Ela, não só estava mais exuberante do que ontem, como tinha o caule virado em direção à janela, como a cantora que, debruçada sobre o piano, espera sua deixa para entoar o refrão.

Considerei este um verdadeiro luxo, uma tulipa florindo em casa. Uma pequena flor que sai da terra apenas uma vez por ano para embelezar a vida. E para tal esplendor, ela não pede quase nada em troca, muito pouco na verdade. Me deu vontade de voltar ao mercado e dizer às pessoas que levem as tulipas e deixem os melões para o verão.

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Esta crônica foi selecionada para publicação no Ano 2 – número 11 – Outubro/Novembro – 2023 pela Revista Mar de Lá. Você encontra meu texto na página 30 da revista.

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